Não entre em pânico!
Olá! Meu nome é Raul e hoje eu gostaria de falar do meu livro favorito de todos os tempos. Escrito por Douglas Adams nos anos 70 e 80 do século passado, ‘O Guia do Mochileiro das Galáxias’ é uma obra prima da ficção científica mundial em geral e do humor britânico mais especificamente. Neste vídeo, usarei as citações da edição de 2020 da editora Arqueiro (Adams, 2020) que traz os cinco livros da trilogia num único volume e é uma maravilha de se ter na estante! A primeira versão que eu li, contudo, é também da editora Arqueiro, mas lááá do início dos anos 2000 e que trazia cada livro separado. Já não tenho estes volumes que devem ter se perdido em alguma das minhas várias mudanças ou esteja na casa dos meus Pais. Também tenho uma edição em papel no inglês original que traz os primeiros quatro livros da trilogia (Adams, 2002) e uma outra no Kindle que traz os cinco livros da série juntos (Adams, 2010).
(um primeiro parêntese: a série foi crescendo e, não contente em parar numa trilogia de três, cresceu sem sentido como tudo nela e chegou a ter estes cinco livros na trilogia)
A série de livros é apenas uma das versões da história. Adams começou a escrevê-la para um programa de rádio da BBC ainda no fim da década de 1970 que foi transformado em livros, peças de teatro, discos LP, série de televisão, filme e até jogo de vídeo game. Contudo, a história não é exatamente a mesma em nenhuma das versões e nem o autor consegue saber ao certo qual é versão mais correta (Adams, 2020, p. 13) – se é que existe uma coisa dessas.
E é aqui eu quero começar a traçar um paralelo entre esta história genial com o mundo turismo. Sempre explico aos meus alunos que realidade não importa muito no turismo, mas eu tenho a impressão de que eles não me levam muito a sério. A verdade, de uma forma ou outra, é bem pouco relevante para o fenômeno turístico. Existem várias versões de um atrativo, de uma tradição, de um território. Depende de quem conta e, ainda mais importante, depende de quem escuta a história. Um dia falaremos de Hobsbawn e seu livro sobre a invenção das tradições (Hobsbawn, 2012). Mas hoje não. Hoje vamos de Cohen, um dos autores aos quais eu sempre volto e que comenta, num artigo importantíssimo chamado ‘Authenticity and commodification in tourism’ (Cohen, 1988), que o conceito de autenticidade utilizado por muitos pesquisadores sobre o turismo (por exemplo MacCannell, 1999) é extremamente fechado e não abriga todas as possibilidades do que turistas podem considerar autêntico – ou real, ou verdadeiro.
Tal qual Adams explica que há uma infinidade de versões sobre a suposta história verdadeira d’O Guia (Adams, 2020, p. 13), Cohen (1988, p. 383) comenta que cada turista determina o quão autêntico um atrativo, uma experiência, um território deve ser para satisfazer as necessidades de quem o visita. Um exemplo que eu gosto muito de dar nas minhas aulas aqui na Espanha é sobre o caso da paella, mas eu prefiro mudar para um exemplo mais mineiro: o pão de queijo. Para um turista que vem de fora do Brasil, comer um pão de queijo no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, pode ser uma experiência autêntica se o intuito da visita dele é fazer 3 reuniões super-rápidas em indústrias no ABC Paulista. Para quem viaja ao Brasil com mais tempo, contudo, pode escolher viajar até Belo Horizonte e comer um pão de queijo com pernil no Mercado Central da capital mineira.
(mais um pequeno parêntese: eu prefiro e sei que os pães de queijo de Contagem são melhores que os de BH, mas não quero promover uma gentrificação da melhor cidade do mundo, então deixemos que turistas invadam Belo Horizonte mesmo)
Alguém um bocado mais gourmet, digamos: um chef de cozinha francês, pode escolher ir até São Roque de Minas, no sopé da Serra da Canastra, para provar um pão de queijo feito com o melhor queijo do mundo (Mallmann, 2022). Porém, alguém que tenha estudado história, antropologia, sociologia, gastronomia… pode não se contentar com comer um pão de queijo no café da manhã de alguma pousada de algum dos incríveis municípios do Circuito Turístico Nascentes das Gerais e Canastra (CTNGeC, 2026) porque alguém de Minas que esta pessoa conhecia já lhe havia comentado que só o pão de queijo da própria avó é que era autêntico – e lá se vai a pessoa a turistar na casa de alguma avó mineira para provar um pão de queijo real, verdadeiro, perfeito. Tal qual cada versão d’O Guia encontra seu público, cada turista tem, portanto, sua exigência pessoal quanto à autenticidade – ou seja, uma exigência no nível de realidade, de verdade, da experiência turística.
(aqui um outro parêntese: há quem diga, porém, que o simples fato de a pessoa que busca pelo pão de queijo mais verdadeiro ser turista impede a existência de uma experiência real; segundo algumas correntes (por exemplo Maccannell, 1973), não há experiências fundamentalmente autênticas para um turista já que tudo é sempre armado, construído, mercantilizado nas relações entre locais e turistas: uma avó local não faria um pão de queijo assim, do nada, sem motivo aparente para turistas, mas sim que o prepararia para a netaiada. Mas isso é uma discussão para outro dia!)
Voltando aO Guia, Adams era um visionário e já no fim dos anos 1970 previu a chegada dos livros eletrônicos (Adams, 2020, p. 53). O tal Guia que dá nome ao livro é, ele mesmo, um livro dentro da história. O capítulo 8 começa explicando que “o Guia do Mochileiro das Galáxias é um livro realmente admirável. Há muitos anos que vem sendo escrito e revisto, por muitos redatores diferentes. Contém contribuições fornecidas por inúmeros viajantes e pesquisadores” (Adams, 2020, p. 69). A história conta que um dos seus personagens, Ford Prefect, natural de um planeta nas vizinhanças de Betelgeuse, veio à Terra para realizar um trabalho de campo para O Guia. Como não conseguia uma carona para deixar o nosso planeta, acabou ficando preso aqui por 15 anos e fez uma grande amizade com o personagem principal, o terráqueo Arthur Dent. Quando Ford chegou à Terra, o verbete sobre nosso mundo era bastante conciso, apenas uma palavra: “inofensiva”. Ford, depois da sua extensa experiência na Terra, atualizou o verbete para “praticamente inofensiva” (Adams, 2020, p. 60) – o dobro de palavras! Talvez não seja o verbete mais profundo d’O Guia, mas já é bem melhor que os adjetivos brindados pelo escritor e guia catalão Myself aos edifícios em Art-Nouveau que surgiram em Barcelona no fim do século 19 e início do século 20 no seu guia sobre a cidade: ele os chamava de estrambóticos, chatos, incômodos, de gosto lamentável (Soldevila, 2007, p. 27). O que hoje é a joia da coroa do turismo barcelonês, com exemplos como a Casa Milà, a Casa Batlló ou a Sagrada Família, era considerado um escândalo e uma afronta à arquitetura neoclássica tão querida pelos catalães da penúltima virada de século.
Estes adjetivos tão pouco animados, tanto nO Guia em relação à Terra como no guia de Myself em relação à arquitetura Art-Nouveau de Barcelona, vão de encontro com o que eu proponho na minha tese de doutorado sobre o que faz de um livro um verdadeiro guia turístico. Lá pelos meandros do meu texto (Morais, 2019, p. 92), eu comento que, a partir das minhas pesquisas, uma característica fundamental de um guia turístico é estimular e informar, tudo o que O Guia, por um lado, e Myself, pelo outro, não fazem. E não é que eles não se propõem a fazê-lo: O Guia sim que estimula e informa sobre viagens a outros rincões da Galáxia, como as incríveis praias de Santraginus V; e Myself não poupa elogios às Rambles de Barcelona.
(aqui um último pequeno parêntese: o nome de A Enciclopédia Galáctica é uma clara menção à Enciclopédia Galáctica da fenomenal série de ficção científica ‘Fundação’ de Isaac Azimov (2021))
Eu não sei o quanto Adams sabia sobre guias turísticos quando escreveu O Guia do Mochileiro das Galáxias. Ele comenta na introdução do livro (Adams, 2020, p. 13) que a ideia surgiu em Innsbruck, na Áustria, quando ele estava viajando pela Europa com um guia chamado ‘Hitch-hiker’s Guide to Europe’ (Welsh, 1977). O interessante, contudo, é que, na história, ele cria relações entre O Guia (o livro dentro do livro) e um outro livro (dentro do livro) chamado A Enciclopédia Galáctica. Ele compara os dois livros e diz que (Adams, 2020, p. 22)
Em muitas das civilizações mais tranquilonas da Borda Oriental da Galáxia, O Guia do Mochileiro das Galáxias já substituiu a grande Enciclopédia Galáctica como repositório-padrão de todo o conhecimento e sabedoria, pois ainda que contenha muitas omissões e textos apócrifos, ou pelo menos terrivelmente incorretos, ele é superior à obra mais antiga e mais prosaica em dois aspectos importantes. Em primeiro lugar, é ligeiramente mais barato; em segundo lugar, traz na capa, em letras garrafais e amigáveis, a frase NÃO ENTRE EM PÂNICO.
Antes dos guias turísticos atuais, as principais fontes de informação para quem viajava (pela Terra, sem O Guia do Mochileiro das Galáxias) eram mesmo os grandes tratados geográfico-históricos dos destinos. Por exemplo, um dos principais documentos que marcam a antiguidade do gênero de guia de viagens é o livro ‘Descrição da Grécia’ do geógrafo Pausanias (Pausanias, 2017) do 2º século da Era Comum. É só a partir de meados do século 19 que começamos a ver guias turísticos tal-qual os entendemos hoje: caso das incríveis publicações de John Murray na Inglaterra em 1836 e de Karl Baedeker três anos mais tarde na Alemanha. Diferentemente dos grandes volumes enciclopédicos que se levavam nas viagens do Grand Tour, os guias turísticos de Murray (Goodwin & Johnston, 2013) e Baedeker (Mendelson, 1985) tinham características novas que os faziam muito mais atraentes para a emergente classe turística que estava surgindo a partir da Revolução Industrial: os guias turísticos modernos, entre outros atributos, eram altamente intuitivos para o usuário; e eram suficientes em si mesmos para que a viagem não pedisse nenhum outro livro (François, 2012, p. 83). Só faltou mesmo o aviso para não entrar em pânico.
Ainda há muito o que aprender sobre guias turísticos, mas vou parar por aqui o início da nossa conversa sobre este tema tão fascinante que são estes livrinhos tão importantes para o desenvolvimento do turismo. E lembremo-nos da principal mensagem deste vídeo: não entremos em pânico!
Um abraço e até a próxima!
Bibliografia
- Adams, D. (2002). The hitchhiker’s guide to the galaxy : a trilogy in four parts. Picador.
- Adams, D. (2010). The ultimate hitchhiker’s guide to the galaxy. Ballantine Books.
- Adams, D. (2020). O Guia Definitivo do Mochileiro das Galáxias (C. I. da Costa, M. H. A. Gonçalves, & P. H. Britto, Trads.). Editora Arqueiro.
- Asimov, I. (2021). Foundation. Bantam Dell.
- Cohen, E. (1988). Authenticity and Commoditization in Tourism. Annals of Tourism Research, 15(3), 371–386. https://doi.org/10.1016/0160-7383(88)90028-X
- CTNGeC. (2026, janeiro 2). Circuito Turístico Nascentes das Gerais e Canastra – Vivencie momentos inesquecíveis! https://nascentesecanastra.com.br/
- François, P. (2012). If It’s 1815, This Must Be Belgium: The Origins of the Modern Travel Guide. Book History, 15(1), 71–92. https://doi.org/10.1353/bh.2012.0000
- Goodwin, G., & Johnston, G. (2013). Guidebook Publishing in the Nineteenth Century: John Murray’s Handbooks for Travellers. Studies in Travel Writing, 17(1), 43–61.
- Hobsbawn, E. (2012). The Invention of Tradition. Cambridge University Press.
- Maccannell, D. (1973). Staged Authenticity: Arrangements of Social Space in Tourist Settings. American Journal of Sociology, 79(3), 589–603.
- MacCannell, D. (1999). The tourist : a new theory of the leisure class. University of California Press.
- Mallmann, D. (2022, junho 23). Queijo Canastra é eleito o melhor do mundo em ranking internacional | CNN Brasil V&G. CNN Brasil. https://www.cnnbrasil.com.br/viagemegastronomia/viagem/queijo-canastra-e-eleito-o-melhor-do-mundo-em-ranking-internacional/
- Mendelson, E. (1985). Baedeker’s Universe. Yale Review, 74(3), 386–403.
- Morais, R. (2019). The evolution of tourism destination image through travel guidebooks. The case of Barcelona. https://www.tdx.cat/handle/10803/667214
- Pausanias. (2017). Descripción de Grecia (2o ed). Alianza Editorial.
- Soldevila, C. (2007). L’Art d’Ensenyar Barcelona. Llibres de l’Índex.
- Welsh, K. (1977). Hitch-hiker’s guide to Europe : how to see Europe by the skin of your teeth. Macmillian.